22/12/2014

PIB: Mercado não acerta crescimento em 5 dos últimos 7 anos

A verdade inconveniente sobre o ?consenso dos experts?

Uma das novidades anunciadas pela nova equipe econômica é o uso das expectativas do mercado, condensados no Boletim Focus, para as projeções orçamentárias e macroeconômicas do Governo Federal. Ainda que seja louvável a busca pelo alinhamento de expectativas entre analistas de mercado e instituições governamentais, a premissa implícita de que o Focus consegue prever os indicadores da economia não tem se mostrado confiável.

 

Para a variação do PIB, o gráfico abaixo mostra os intervalos com as projeções para os valores mínimos, máximos e medianos de 2008 a 2015, vigentes no dia 31 de dezembro dos dois anos anteriores ao período objeto da previsão.

 

Infográfico - Ponto Futuro

 

 

Os resultados, como podemos ver, não são nada elogiosos para a capacidade de previsão dos analistas:

·         Em 5 dos 7 anos analisados, a variação real do PIB ficou fora do intervalo de previsões de 1 ano. Nos dois anos em que houve acerto, o valor do PIB esteve perto dos pontos mínimo ou máximo;

·         Em nenhum ano o PIB real esteve dentro do intervalo para previsões com 2 anos de antecedência.

 

Vale destacar que, muito embora erros de previsão sejam naturais e esperados, no caso da pesquisa Focus eles são sistemáticos, e não aleatórios, pois ocorrem em uma direção previsível. As fontes destes erros são explicadas por diversos vieses detalhados na literatura da economia comportamental:

 

·         Ancoragem e ajustes insuficientes – os previsores consideram, em seus cálculos, os valores determinados em rodadas de análise anteriores, ainda que eles tenham se tornado irrelevantes, e os ajustam insuficientemente à luz das novas informações, em especial se elas forem contraditórias à expectativa anterior. Em praticamente todos os anos mostrados no gráfico, a previsão do ano anterior ao de projeção ficou “no meio do caminho” entre a previsão de dois anos antes e o real verificado: ou seja, as previsões se aproximaram da realidade, mas não o suficiente.

 

·         Conformação social – apesar de teoricamente independentes e anônimos, os responsáveis pelas projeções consolidadas no relatório Focus possuem clientes internos (a liderança de suas instituições financeiras e empresas), e externos (consumidores de análises conjunturais), e participam de um mercado em que o incentivo econômico ao assumir publicamente uma posição contrária ao consenso é muito pequeno, ou talvez negativo. Em termos práticos, há menos riscos para a credibilidade de um analista errando por muito uma previsão, mas estando perto do consenso, do que na situação contrária.

 

·         “Otimismo” ou falácia do planejamento – na maioria dos casos, os modelos de previsão desconsideram eventos “disruptivos” com impactos concretos na variável que queremos projetar. Estes movimentos, como estouros de bolhas, crises cambiais e calamidades, ainda que sejam de difícil previsão individual e específica, ocorrem com frequência suficientemente grande para que sejam totalmente ignorados. Para 2015, por exemplo, não nos parece que os números de PIB “de consenso” incorporem a possibilidade de escassez estrutural de energia e água nos maiores polos econômicos do país, ou de uma crise financeira relevante em grandes países emergentes (há vários candidatos), entre outros eventos “imprevisíveis”.

 

Uma lição importante para executivos, consultores e planejadores é que todos estamos sujeitos a estas influências, como indivíduos e organizações, e é necessário muita disciplina analítica e honestidade intelectual e psicológica para reconhecê-los, evitá-los e corrigi-los.

 

Uma estratégia mais prática e que exige menos autocontrole individual e coletivo é realizar previsões de forma probabilística, ao invés de determinística. Apesar de a prática ainda ser pouco comum (e contraintuitiva), exercitar o planejamento probabilisticamente demanda mais criatividade e flexibilidade das organizações para se prepararem e ajam em diferentes futuros possíveis – o que entendemos ser uma vantagem inquestionável, e que compensa o desconforto de não se trabalhar com “um único número”.

 

Concluindo, para aqueles que terão a dura missão de atuar no mundo real em 2015, vale reforçar a mensagem de cautela e realismo quanto às reais perspectivas da nossa economia, e lembrar que crises podem sim ser oportunidades de reposicionamento e reinvenção – desde que se tenha os olhos abertos e uma perspectiva original. Para isso, as “médias do mercado” não terão utilidade.

 

Sobre o autor:

Guilherme Lima é sócio-fundador da Ponto Futuro, consultoria de estratégia e desenvolvimento de negócios. Desenvolve há 15 anos projetos de planejamento de negócios e análises de mercado para empresas de serviços financeiros, varejo e energia, entre outros segmentos. Engenheiro de Produção pela UFRJ e Mestre em Administração pela UNC-Chapel Hill (EUA). Trabalhou como executivo e consultor na A.T.Kearney, MasterCard, Roland Berger e Shell Brasil. www.pontofuturoconsultoria.com.br.

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